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domingo, 25 de setembro de 2016

Por trás do silêncio

Era noite.
A rua estava isolada e o esgoto seguia o seu curso rua abaixo, ziguezagueando pelos buracos. Não havia asfalto, ou calçada. Apenas uma porta separava o meu barraco do mundo. Imundo. 
O som que irrompeu a noite me trouxe uma triste convicção.
Morria um irmão a tiros na rua de trás.
Meus músculos se contraíram. O cano ainda devia estar quente e sua vida devia estar escorrendo rua abaixo, ziguezagueando pelos buracos. 
O silêncio era onipresente. Assim como as vozes caladas pelo medo, os sonhos sufocados pela realidade e a ganancia que era capaz de sobrepor os esforços de algo honesto. 
O silêncio era onipresente. Assim como o medo daqueles que temiam, como o temor daqueles que temiam temer... 
Por trás do silêncio meu destino vinha sendo escrito.
Me escondi entre a cama e o fogão. Estava escuro, não tinha luz no barraco. Não iam me encontrar!

A pressa nos conduz a caminhos mais fáceis e a insensibilidade torna as coisas banais.
Tudo que vem fácil, vai fácil. O ditado tantas vezes falado, somente naquele momento foi lembrado.
Vivi em uma pressa insensível de facilidades banais.
A porta do meu barraco foi abaixo com apenas um chute.
Não havia mais nada que separasse  o meu lar do mundo. Cruel...
Mas o barraco era escuro, não tinha luz. Não me encontraram!
Respirei aliviado, tudo estava calmo.
Comecei a levantar-me quando senti o cano quente em minha nuca.
Toda escolha tem um preço.
Cai de olho aberto, sentindo a garganta ressecada, a medida em que minha vida escorria rua abaixo em meio aos buracos.
Depois disso, silêncio.

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