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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O doce mundo da analfabeta

Uma banana velha com manchas escuras na casca.
Ela chamava aquilo de merenda? Explodo, queria um lanche de verdade!
Estava farta daquela vida mais ou menos. Jogo a banana pela janela, pego meu celular, ponho o fone de ouvido e saio para esfriar a cabeça. Deixando para trás uma mãe chorosa.
Os livros diante dela pareciam a encarar, mas ela não conseguia entender o que eles queriam dizer. Era uma analfabeta.
Vago pela rua sem destino por um certo tempo até me lembrar do que fazia antes de sair de casa.
O rendimento minimo para ser aprovado em escolas particulares era um pouco maior. Precisava estudar. Cobrei-me, fazendo o caminho de volta para casa quando aquela visão me paralisa.
Não acredito no que vejo, não daquela maneira.

Crianças, gatos, cachorros, disputam palmo a palmo restos de comida, jogado momentos antes no lixo por um comerciante local.
Involuntariamente as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e quando caio em si, já estou engasgada com meu próprio choro.
O que seria daquelas crianças no futuro? Aquelas crianças teriam um futuro? Ou morreriam a minguá diante dos olhos hipócritas e individualistas da sociedade que as rodeava?
Percebo do que minha mãe havia me livrado e sinto um arrependimento por te-la tratado tão mau.
O puxão na barra do meu vestido faz com que eu me assuste.
Era uma daquelas crianças, suas mãos estavam um pouco feridas, suas roupas estavam rasgadas e seu cabelo apresentava sinais de que não eram lavados a um bom tempo. Não conseguia distinguir sequer se era um menino ou uma menina.
Na realidade não conseguia encara-la, via naquele rosto o retrato mais cruel da realidade. Não estava pronta para aquilo.
- Não chora não moça. - Pedia com uma doçura na voz.
Sorri, incrédula. Era estranho ouvir aquele pedido partir de alguém que tinha tantos motivos para chorar.
Ela ouviu o meu silêncio e continuou:
- Olha, hoje eu achei uma coisa, algum idiota jogou fora. Não sei bem o porque, ela esta ótima, e eu vou dar ela pra você ta? Só me prometa que vai parar de chorar. - Exigiu.
Concordei, me rendendo aquela simpatia.
Então ela enfiou a mão no bolso e estendeu para mim uma banana, velha e com manchas pretas. Como ele havia reparado muito bem eu era uma idiota.
Fico perplexa diante de um gesto tão nobre, agradeço-o e dispenso o presente. Por constatar que ele precisa mais do que eu.
Desejo que aquele criança um dia encontre uma mãe analfabeta que lhe de livros e bananas, enquanto corro para casa aflita. Precisava me redimir com alguém.
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